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João Paulo Lima e Silva tem quase 40 anos de militância política, 30 deles dedicados ao Partido dos Trabalhadores em Pernambuco. Um dos fundadores da legenda no Estado diz nesta entrevista ao Blog da Folha que ajudou o PT a buscar filiados nos mais diversos bairros do Recife no início dos anos 80, época ainda sob vestígios deixados pela ditadura militar.
Hoje, como ex-prefeito da capital pernambucana reconhece que a sigla passa por um “problema sério” no Estado. A falta de uma unidade política, segundo ele, impede a consolidação de uma hegemonia local. “Nós temos uma necessidade urgente de um entendimento político. Então há uma necessidade desse pacto”, adiantou em entrevista no seu gabinete no Recife Praia Hotel, na última sexta-feira.
Arquivo Folha
 Posse de João Paulo como prefeito do Recife em 2001
Com se deu a sua entrada no Partido dos Trabalhadores? Eu venho desde o início de 1971, em um período já fazendo parte da Juventude Operária Católica no método ver, julgar e agir. Desde aquele momento, fiz uma opção de vida de lutar junto com o povo pela educação, saúde, emprego, lazer... Essa militância começou a partir da organização dos jovens que refletiam seus problemas, desde uma gravidez indesejada, o desemprego, entre outros. Já no movimento de igreja, eu entrei na fábrica já politizado e comecei a organizar a resistência dos trabalhadores e as oposições sindicais. Já havia um forte movimento de combate contra a ditadura militar e que foi se consolidando tanto aqui como no Brasil. Nesse momento, os trabalhadores refletiam a necessidade de se construir uma alternativa de um partido político pela esquerda e que evitassem os erros do socialismo que existia no mundo: o soviético, o cubano e o albanês. Então o PT nasceu justamente desses movimentos operários, comunitário, intelectuais, militantes de ONGs e outras camadas da sociedade.
Como surgiu o PT aqui em Pernambuco? É importante lembrar que o PT não só surgiu em São Paulo.Claro que lá tinha a maior economia do Brasil e um movimento operário mais organizado, mas aqui em Pernambuco paralelamente o espaço que era dado em São Paulo era dado também aqui no Estado. A luta contra a ditadura, a luta pela tomada do sindicato das mãos da oposição... E foi justamente esse grupo de pessoas que deu início a uma campanha de filiação para a construção do partido. Meu trabalho na construção do partido se deu inicialmente na busca de filiados em diversos bairros. Havia uma dose de preconceito muito grande de algumas forças mais à esquerda e pelo fato de os trabalhadores fazerem política e quererem disputar a hegemonia nacional. Muitas vezes, por não estar na institucionalidade, o PT parecia ser para a sociedade um partido radical de extrema esquerda.
Nos últimos anos o partido deve que se aliar à siglas mais conservadoras do país em nome da chamada “governabilidade”. É o PT pós Lula? Temos que entender que não há um PT antes de Lula e depois de Lula. Existe o PT que por nós vivermos numa nação democrática e termos garantido uma transição lenta e gradual, sem conflitos radicais, garantiu um amadurecimento da legenda. O PT tinha posições mais extremadas, mas era um momento que exigia essas posições. Com o advento da democracia, o PT teve que se adequar à democracia burguesa. Meus oitos anos de gestão na PCR simbolizaram isso. Governei a cidade para empresários, mas com prioridade para a população de baixa renda. Acho que o governo de Lula é isso também. Consegue dialogar com banqueiros, mas consegue inverter a política social e garantir mais de 32 milhões de pessoas fora de uma situação de miseráveis no Brasil.
Se adequar significa deixar para trás todas as bandeiras defendidas pelo seu partido no passado? Temos que compreender um pouco o momento que estamos vivendo. Perdemos a referência de uma sociedade socialista do ponto de vista internacional. Não existe nenhum país hoje que sirva de uma referência. Defendemos uma sociedade socialista e que possa garantir uma maior distribuição de rende. O sonho mesmo da utopia é construir uma sociedade comunista onde cada cidadão seja respeitado na sua essência de um ser e não pela propriedade que ele possa ter.
Lula é maior do que o PT? Acho equivocado dizer isso ou que qualquer militante seja maior do que o PT. O nosso partido pode passar sem qualquer uma de suas lideranças nacionais, seja no Recife ou no Brasil. É lógico que cada saída (de membros petistas) tem um peso, mas o partido vai sobreviver com qualquer queda dessa. É um partido que tem um projeto, articulado e com sua democracia interna. Tem suas divergências, mas consegue trabalhar isso internamente. Agora, Lula tem uma importância muito grande não apenas para o PT como para o Brasil. Ele vai continuar no PT. Vai sair da Presidência da República, mas continuará influenciando ainda muito o partido. O que a gente deveria mesmo perguntar é o que seria o Brasil sem Lula.
E o mensalão? Foi um escândalo que colocou o PT e muitos de seus integrantes na berlinda. Acho que houve uma coisa orientada e direcionada para inviabilizar o governo de Lula. Um ataque que ao meu ver foi planejado e organizado. Os principais nomes da federação do governo foram atingidos, mas tanto o partido como o governo ficaram preservados. Um exemplo é que na primeira eleição interna depois desses escândalos, mais de 300 mil militantes reafirmaram seu compromisso com o projeto partidário.
Mas atualmente faltam quadros na legenda. E muitos acreditam que a ministra Dilma Rousseff é a “tábua de salvação” nessa lavoura petista... Temos muitos nomes. Não é só no PT que tem bons quadros, mas no nosso campo também tem excelentes nomes importantes para o Brasil.
O senhor é visto como a grande liderança petista em Pernambuco.O senhor se considera o maior dentro do partido no Estado? De forma nenhuma. O partido tem muitos quadros importantes aqui. Citaria Humberto Costa, Fernando Ferro, Maurício Rands, Múcio Magalhães, Pedro Eugênio... O prefeito (João da Costa), de qualquer forma, é importante reconhecer que ele se elegeu numa cidade como o Recife.
Mas eu falo em puxador de votos... Tem alguns que foram testados nas urnas e tiveram resultados. Outros foram testados, mas sem o objetivo de se elegerem. Veja o caso do companheiro Humberto Costa que teve uma extraordinária votação, mas foi dado um golpe na sua candidatura ao Governo do Estado com denúncias improcedentes. Pode existir um momento de uma liderança estar melhor relacionada com o eleito e a cidade. É importante fazer uma avaliação de conjunturas e avaliarmos quem está com esses potenciais e utilizarmos melhor isso.
Que avaliação o senhor faz do PT estadual? Nós temos um problema sério no PT em Pernambuco. Nós temos uma necessidade urgente de um entendimento político, uma unidade política se quisermos uma consolidação enquanto força política importante e que também disputa uma hegemonia no Estado. Então há uma necessidade desse pacto. Outra necessidade é fortalecer o trabalho de base e formação articulado com os movimentos sociais, sindicais e de lutas comunitárias. Dar uma qualidade maior às nossas disputas internas e executar um planejamento estratégico de poder para as diversas regiões do Estado.
E o que falta para esse pacto interno acontecer? Primeiro é quebrar esse clima de desconfiança. E segundo é conversar,conversar e conversar. Temos conversado muito pouco. Embora agora esteja bem mais freqüente. Na última vez que estive com Humberto ele concordou com essa minha avaliação.
De onde vem tanta desconfiança? Das mais diversas matrizes e informações... A disputa pela hegemonia.
Tudo isso interferiu na sua relação com o prefeito do Recife João da Costa? Essa questão eu não quero tocar. Acho que não devo falar sobre ela. Quem me conhece sabe. Vou fazer 40 anos de militância política no próximo ano. Fiz movimento de igreja, sindical, presidente de associação de moradores, delegado sindical, fui membro do Partido Comunista Revolucionário (PCR), fui vereador, deputado três vezes e prefeito por duas vezes. Não tenho que provar nada. Tenho meus objetivos e vou continuar seguindo até minha morte.
O partido se preocupa mais com resultados e deixa de lado a ideologia, né? Nós deixamos de dar a mesma importância que damos ao resultado eleitoral de eleger vereadores, deputados e senadores do que a construção partidária, a formação de novas lideranças e o fortalecimento dos movimentos sociais. Um governo sério tem que estar comprometido com a saúde, o lazer, turismo, saneamento, manutenção da cidade... O partido quando está no poder tem que dar um salto maior que é a elevação da consciência política do cidadão para que essencialmente ele possa exercer o poder através do controle do Estado.
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